Nos
EUA, as 400 pessoas mais ricas têm tanto como 150 milhões de pobres, avisa
Robert Reich. Um documentário apresentado no festival de Sundance dá-lhe voz. E
ele diz que é um mundo diferente é possível.
Há
bastante tempo que o economista norte-americano Robert Reich vem repetindo uma
mensagem: os 400 americanos mais ricos têm, em conjunto, tanto dinheiro como os
150 milhões de americanos mais pobres. Agora Reich encontrou uma plataforma
ideal para que esta mensagem chegue a mais gente.
O documentário –
“poderoso”, chamou-lhe o The
Observer – Inequality for
All (Desigualdade para Todos), que passou no Festival de Sundance,
nos EUA, tem Reich como figura central e as suas ideias como fio condutor para
contar a história da desigualdade económica que não tem parado de aumentar.
No
trailer, Reich
aparece a explicar que uma forma fácil de medirmos as desigualdades é através
da comparação entre o salário do trabalhador americano médio e o de um
americano num dos lugares de topo. Um gráfico animado começa a comparação em
1978, ano em que um trabalhador médio recebia cerca de 48 mil dólares, enquanto
alguém que fizesse parte do 1% no topo receberia algo como 393 mil dólares.
O
gráfico avança depois rapidamente para o ano de 2010: o trabalhador médio ganha
menos do que ganhava em 1978 (33 mil dólares), enquanto o do topo ganha 1101
mil dólares. No final Reich repete: “Pensem nisto, hoje 400 pessoas têm
tanta riqueza como 150 milhões, metade da população americana”. E mais:
os seis herdeiros da cadeia de distribuição Walmart possuem uma fortuna maior
do que a do conjunto de 33 milhões das famílias americanas mais pobres.
Carole
Cadwallard, jornalista do Observer, diz que Inequality for All
foi um sucesso inesperado em Sundance, ao defender a tese de que o capitalismo
norte-americano abandonou a classe média, tornando os mais ricos super-ricos. A
força do documentário está em grande parte na figura de Reich – aliás, o
filme, dirigido por Jacob Kornbluth, segue as aulas do economista na
Universidade da Califórnia em Berkeley, em 2012. E Reich não é um economista
desconhecido. Hoje com 66 anos, foi secretário de Estado do Trabalho na
Administração de Bill Clinton entre 1992 e 1996.
No
início do filme, conta Cadwallard, Reich apresenta-se a uma plateia de alunos
explicando o seu percurso, e recuando cada vez mais no tempo. Antes de Clinton,
esteve na Administração Carter. “Mas vocês não se lembram de Carter, pois
não?”. E, perante o silêncio dos alunos, prossegue: “E antes fui
agente especial de Abraham Lincoln. Esses sim, foram tempos duros”.
Foi
depois de ter lido Aftershock,
um dos livros de Reich (o mais recente intitula-se Beyond Outrage e propõe-se
explicar o que correu mal com “a nossa economia e a nossa
democracia” e como resolver isso), que Kornbluth decidiu desafiá-lo a
fazer um filme sobre a situação económica nos EUA. Uma parte substancial de Inequality for All
foi paga com dinheiro recolhido através do site de crowd-funding Kickstarter.com,
que tem sido usado por vários realizadores independentes.
O
discurso de Reich teve um grande eco em Sundance e o Observer considera
que o documentário pode vir a tornar-se o fenómeno do ano e “fazer pela
economia o que Al Gore [com o seu An Inconvenient Truth] fez
pelo ambiente”.
O
que o filme de Kornbluth conta, explica Cadwallard, é a história de como a
classe média foi ficando cada vez mais privada do bolo económico. Uma situação
que não é benéfica para ninguém, sublinha Reich. Dado que 70% da economia
depende do poder de compra desta classe média, se esta não puder comprar, a
economia não pode crescer. É a mesma mensagem que outros economistas têm
repetido, mas Reich fá-lo de uma forma particularmente clara, e, segundo a
jornalista do Observer,
divertida.
“Eu
nunca tinha feito nada político antes”, afirma o realizador. “Não
me considerava uma pessoa política. Mas ver o exemplo de [Reich], a forma como
ele conduziu esta luta durante tantos anos foi uma inspiração para mim. Vejo
isso nos estudantes dele – eles saem das aulas e querem mudar o
mundo”.
Os
americanos não têm vivido acima das suas posses”, defende, num dos posts do
seu blogue. “O problema é que as posses deles não têm acompanhado o
crescimento da economia”. O filme apresenta também essa realidade através
de casos concretos, e muitos dos espectadores em Sundance confessaram ter
chorado ao ouvir alguns dos testemunhos.
Mas,
diz ainda Cadwallard, talvez a voz mais surpreendente do documentário seja a de
Nick Hanauer, um milionário que faz parte do tal 1% de ricos, e que vem dizer
que os impostos que paga são, na sua opinião, insuficientes. Hanauer diz o
mesmo que Reich: o sistema não está a funcionar, porque a classe média não
consegue comprar. “Eu posso guiar o melhor Audi da cidade, mas é apenas
um…”.
Reich
considera que um dos momentos decisivos para explicar a actual situação foi o
desinvestimento feito na educação na década de 70. A partir daí, diz o
economista, as oportunidades para as classes mais baixas reduziram-se, e a
força de trabalho americana começou a perder terreno.
Há
30 anos que Reich repete as mesmas ideias, e, no entanto, a mensagem tem tido
dificuldades em passar. "Porquê?", pergunta-lhe um jornalista do Huffington Post.
“Em parte, por cinismo”, responde. “Somos cínicos em relação
à política e à nossa democracia. E em parte porque não compreendemos que o
mercado não pode funcionar sem regras do jogo criadas pelo Governo. Criamos o
mercado através das regras que estabelecemos numa democracia, e temos poder
sobre ele. Nós não trabalhamos para a economia. Deve ser a economia a trabalhar
para nós.”
