O presidente da Cáritas Portuguesa luta por uma nova consciência social que acabe com a pobreza.
"Tenho como convicção que o compromisso pessoal que fazemos, enquanto
cidadãos, de sermos parte da solução dos problemas da nossa sociedade é
a única forma de sermos no nosso tempo e no nosso mundo protagonistas
da diferença e da transformação. É sob este princípio que procuro
orientar a minha vida e, penso mesmo, se assim não fosse de nada valeria
o meu desempenho na Cáritas Portuguesa. Não viveríamos os problemas que
estamos a viver se, de uma forma geral, todos os cidadãos e cidadãs
tornassem mais operativas as suas convicções teóricas e os anseios de
prosperidade.
A falta de "cidadania ativa" (e é revelador o fato de termos de dar à
palavra "cidadania" o adjetivo "ativa") é um dos fatores que trouxe o
país à atual situação. Urge, assim, estreitar a distância que fica entre
ser sociedade civil e ser agente ativo e promotor de "pensamento
social", agindo em conformidade. Quando fui chamado a desemprenhar as
minhas atuais funções na Cáritas Portuguesa senti que estava a ser
desafiado a exercitar os meus deveres de cidadão, acrescentados de
significado pelo compromisso decorrente da minha condição de cristão.
Senti que não fazia sentido "reclamar" direitos e pedir justiça e
partilha de bens, mas que deveria intervir quando a isso era impelido.
A decisão de aceitar sair do meu lugar para ir ao encontro dos outros
é viver a cidadania. Ficar de fora como "debitador" de sentenças e não
me dispor a intervir não faz parte da minha postura. Não está no meu ADN
nem no meu modo de ser cristão católico. A experiência leva-me a pensar
que a luta contra a pobreza exige também uma nova consciência social. É
urgente que todos percebamos isto, sob pena de continuarmos a colocar
os pobres no "banco dos réus" pela condição em que vivem e não as causas
que estão na origem da pobreza.
Obriga-nos ainda a ter um novo olhar
sobre este persistente fenómeno social, assumindo a convicção de que não
se trata de uma fatalidade, mas que é possível a sua erradicação, pelo
menos nas suas expressões mais agressivas.
Outra dimensão a ter em conta é que as questões da pobreza não se
situam apenas no domínio das insuficiências económicas e sociais, é,
antes de mais uma questão de violação de Direitos Humanos. São todas
estas realidades que pautam a missão da Cáritas em Portugal.
É disto que
falo nas minhas múltiplas e diversificadas comunicações e é esta a
herança que quero deixar aos meus filhos e um dia aos filhos deles.
Este tem que ser um trabalho de toda a sociedade e não apenas de
alguns dos seus grupos minoritários. Quando assim for, a sua capacidade
para influenciar as decisões políticas reforçará, decisivamente, o
empenhamento dos governos em cumprir compromissos assumidos
.É
imprescindível que a sociedade, no seu todo, participe na definição e
concretização das estratégias consideradas necessárias. No respeito pela
subsidiariedade, as organizações da sociedade civil devem atuar naquilo
que sabem fazer melhor: evitar duplicações e desperdícios; ser
participativas; credíveis e prestar contas, de modo a conquistar a
confiança dos destinatários da sua ação e da sociedade em geral.
Para
isso é preciso reconhecer que o desenvolvimento não tem apenas uma
dimensão económica mas que existe uma inegável inter-relação com a
dimensão humana e social, ou seja, ela depende, também, da forma como
nós exercemos a nossa cidadania."