Ao final do segundo dia de viagem a solidão começava a tornar-se
difícil. As saudades da mulher e dos filhos, Mariana de 12 anos e José
Pedro de 5, apertavam forte na noite de 22 de abril. Para se distrair de
tantas ausências, Rui Pratas decidiu enviar um e-mail ao animador da
rádio Antena 1, José Candeias, a contar-lhe a história da sua aventura.
Um antigo condutor de pesados, agora com funções administrativas, que
decidiu usar uma semana de férias em prol da sua paixão pelas
bicicletas e da solidariedade. O desafio era arriscado: fazer o percurso
de Lisboa a Santiago de Compostela em cima de uma bicicleta,
completamente sozinho. Mas a solidão tornou-se uma miragem.
Assim que a sua história foi divulgada na rádio pública,
multiplicaram-se os cumprimentos na estrada e as pessoas que se
aproximavam para saberem mais.
Na bagagem, Rui levava uma música composta pelo irmão, Gonçalo Pratas
e pela cunhada Inês Pupo (vencedores do Prémio SPA de Melhor Livro
Infanto Juvenil 2012). Acreditar é viver é o nome do tema composto para
ajudar a associação Acreditar, que apoia crianças com cancro e as suas
famílias.
IMPACTO NACIONAL
Durante a viagem, Rui foi passando a palavra e pedindo às pessoas
para comprarem a música na loja online iTunes. As receitas revertem na
íntegra para a associação. Só no final do primeiro trimestre de vendas
vão saber os resultados das vendas mas, para já, sabem que estão em 34.º
lugar do topo de vendas nacional, "à frente de artistas como Adele!",
exclama, orgulhoso, Rui Pratas.
A viagem começou a ser preparada em novembro. Rui até construiu uma
bicicleta especialmente para a ocasião. Estipulou um orçamento de 200
euros, contando com a generosidade das pessoas que se cruzariam no
caminho deste peregrino sobre rodas.
"Fui sempre muito bem recebido. O mais complicado foi a chegada a
Albergaria...". Rui repetiu o procedimento habitual à chegada de todas
as cidades: contactar os bombeiros. Desta vez, os soldados da paz
fecharam-lhe as portas e Rui começou a pensar em dormir ao relento...
Acabaria por dormir na casa da mãe do padre da paróquia. "A senhora
tinha mais de 80 anos e não se cansava de repetir que era 'injusto' um
peregrino chegar tão tarde", relembra, divertido.
A rotina incluía acordar à 5 da manhã e pedalar das 6 às 9 da noite,
com pequenas paragens regulares de quinze minutos, fora as refeições.
Grande parte da alimentação foi oferecida, mas o mais inesperado
foram as pessoas que se ofereceram para lhe carregarem o telemóvel.
"Comecei a publicar os passos da viagem no Facebook por brincadeira, mas
as pessoas mandavam mensagens a pedir mais fotografias e informação".
Rui acabou por aceitar os carregamentos que também contribuíram para a
divulgação da causa.
PAIXÃO SOBRE RODAS
A sua paixão pelas bicicletas surgiu já na idade adulta. Os colegas
da transportadora desafiaram-no a ir andar de bicicleta com eles, mas
nunca pensaram que Rui aceitasse. "Esta história passou-se há uns 15
anos. Nessa altura, eu pesava quase cem quilos e fumava três ou quatro
maços de tabaco por dia".
Seria o passeio em duas rodas a mudar o
percurso da sua vida: "Nunca mais larguei a bicicleta. Comecei a treinar
regularmente e deixei de fumar". Hoje, pesa 74 quilos e trocou o carro
pelas duas rodas no percurso para o trabalho. Demora 45 minutos a fazer
18km, um percurso que poderia fazer em menos de metade do tempo, mas o
prazer que sente e a poupança de 150 euros ao final do mês compensam.
Há seis anos, tirou um curso de Motricidade Infantil e, agora, um dos
seus passatempos é ensinar crianças e adultos a andarem de bicicleta.
Apesar do cansaço, Rui já pensa na viagem do próximo ano, que também
quer associar a uma instituição de solidariedade. Em 2014, deverá ter a
companhia de um casal que conheceu na viagem e que o acompanhou na
última etapa, de Valência a Santiago, onde chegou a 27 de abril, tal
como previsto.
"A partida está agendada para 20 de abril de 2014, mas já me sinto motivadíssimo", revela. Só falta escolher a próxima causa.